
O custo global das emissões de gases com efeito de estufa é quase o dobro do que os cientistas estimavam anteriormente, revela um novo estudo realizado por investigadores da Scripps Institution of Oceanography da Universidade da Califórnia, em San Diego. Esta investigação marca a primeira vez que uma avaliação do custo social do carbono (SCC) — uma métrica fundamental para calcular os danos económicos causados pelas alterações climáticas — incluiu especificamente os prejuízos causados ao oceano.
A perda global de corais, a perturbação das pescas e a destruição de infraestruturas costeiras estão estimadas em quase 2 biliões de dólares anuais, um valor que altera fundamentalmente a forma como medimos as finanças climáticas. Durante décadas, as estimativas económicas das alterações climáticas atribuíram efetivamente um valor de zero ao oceano, tratando-o apenas como uma questão ambiental e não como uma parte central da história económica global.
O custo real do carbono azul
O custo social do carbono é um método de contabilidade utilizado para calcular o custo monetário de cada tonelada de dióxido de carbono libertada para a atmosfera. É considerada uma das ferramentas mais eficientes para internalizar os danos climáticos na tomada de decisões económicas. Historicamente, estes cálculos têm sido utilizados por organizações internacionais e departamentos estatais para avaliar propostas políticas.
Excluindo os danos nos oceanos, o custo social do carbono situava-se nos 51 dólares por tonelada de dióxido de carbono emitida. Com a inclusão do oceano, que cobre 70% do planeta, este valor dispara para os 97,20 dólares por tonelada. Tendo em conta que em 2024 as emissões globais de CO2 foram estimadas em 41,6 mil milhões de toneladas, este aumento de 91% no custo representa um impacto significativo nos modelos económicos globais.
O estudo, que teve início em 2021, reuniu cientistas de várias disciplinas, incluindo especialistas em pescas, investigadores de recifes de coral, biólogos e economistas climáticos. A equipa avaliou os custos a jusante das alterações climáticas em quatro setores principais: corais, mangais, pescas e portos marítimos. A análise abrangeu desde a perda direta de mercado devido à redução das pescas e do comércio marítimo até às reduções nas indústrias recreativas baseadas no oceano.
Impacto desproporcional e decisões políticas
Os investigadores também atribuíram um valor monetário ao que os economistas chamam de "valores de não uso". Isto refere-se ao valor intrínseco que algo tem por tornar o mundo mais habitável ou digno de proteção, mesmo que não seja utilizado diretamente. O estudo destaca que, embora a maioria das pessoas nunca visite um recife de coral ou veja uma medusa de águas profundas, existe uma valorização significativa da existência destes ecossistemas.
A investigação alerta ainda que as economias insulares, que dependem mais do mar para a nutrição, enfrentarão impactos financeiros e de saúde desproporcionais devido ao aquecimento e acidificação dos oceanos. Os países com maior responsabilidade pelas alterações climáticas e maior capacidade para as resolver não são, geralmente, os mesmos que sofrerão os maiores danos a curto prazo. A inclusão destes novos dados nas avaliações revela consequências acrescidas para a morbilidade e mortalidade em países de baixos rendimentos.
Apesar da escala da descoberta, a implementação destes novos valores enfrenta desafios políticos. Um memorando da Casa Branca de 2025, proveniente da administração Trump nos EUA, instruiu as agências federais a ignorar estes dados durante as análises de custo-benefício, a menos que exigido por lei. Ainda assim, os autores do estudo, conforme detalhado pela Inside Climate News, esperam que o valor elevado deste "SCC azul" possa motivar um maior investimento na adaptação e resiliência dos sistemas oceânicos.










Nenhum comentário
Seja o primeiro!