
Sempre que as tensões geopolíticas apertam, os condutores em Portugal sentem o impacto imediato na carteira. Recentemente, com o bloqueio do Estreito de Ormuz derivado do conflito no Irão, o preço do barril de Brent galgou dos 68 para a barreira dos 90 dólares. No entanto, fica sempre uma questão no ar: porque é que o gasóleo sofre aumentos tão agressivos quando comparado com a gasolina? A resposta vai muito além dos conflitos no Médio Oriente e esconde-se nas decisões estruturais tomadas no nosso continente nas últimas décadas.
O declínio da refinação no espaço europeu
O calcanhar de Aquiles do gasóleo reside na capacidade de processamento da Europa. A verdade é que a indústria de refinação europeia estagnou. Há mais de trinta anos que não nasce uma única refinaria nova no continente e, desde 2009, perto de 30 instalações fecharam as portas. As infraestruturas que sobrevivem estão tecnicamente desajustadas para lidar com os petróleos mais pesados e com elevado teor de enxofre que circulam atualmente no mercado.
A somar a isto, as políticas direcionadas para a neutralidade carbónica tornaram o setor pouco atrativo para novos investimentos. O objetivo progressivo de reduzir o papel dos combustíveis líquidos nos transportes rodoviários a zero ditou o afastamento do capital. Desde o final de 2021 que o Banco Europeu de Investimento deixou de financiar a maioria dos projetos de refinação tradicional, o que naturalmente também afugentou os investidores privados. Para sobreviverem, muitas das instalações existentes estão a ser convertidas para produzir hidrogénio ou combustíveis sustentáveis para a aviação.
A dependência externa e a segurança da gasolina
Com a produção interna a encolher, o mercado europeu tornou-se altamente dependente da importação de gasóleo já refinado. Durante muito tempo, este cenário parecia confortável, com as necessidades divididas entre a Rússia e o Médio Oriente. Contudo, com a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022 e o corte das ligações russas, o mercado entrou em choque. A Europa teve de procurar alternativas de forma repentina, passando a depender fortemente do transporte marítimo proveniente do Médio Oriente, EUA e Índia.
Quando rotas cruciais de comércio marítimo sofrem bloqueios, o problema agrava-se. O mercado não sofre apenas com a falta de matéria-prima, mas sim com a escassez do produto já transformado e com o risco gigante de não o conseguir fazer chegar aos portos europeus. É exatamente por este motivo que as cotações do gasóleo refinado chegam a disparar três vezes mais do que o próprio petróleo bruto.
Por outro lado, a gasolina tem um perfil de mercado totalmente distinto. A capacidade de produção interna europeia consegue responder de forma muito mais autónoma à procura, tornando o continente muito menos dependente de importações marítimas para este produto específico. É esta maior independência que serve de escudo e justifica que a gasolina sofra variações muito mais suaves, enquanto a dependência estrutural construída em torno do gasóleo apresenta sempre a sua fatura pesada nos postos de abastecimento.












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