
Apesar de ser uma alternativa gratuita e robusta, um dos principais obstáculos que impede muitos utilizadores de trocarem o Microsoft Office pelo LibreOffice é a compatibilidade. Embora a suite open-source seja geralmente compatível com os formatos da gigante tecnológica, surgem frequentemente peculiaridades de formatação e layout que frustram a experiência. A The Document Foundation (TDF), a organização por trás do LibreOffice, decidiu agora subir o tom das críticas, acusando a Microsoft de manter intencionalmente a complexidade dos seus ficheiros para prejudicar a concorrência e os próprios utilizadores.
Numa nova publicação que reacende a "guerra dos formatos", Italo Vignoli, membro fundador da TDF, classificou como "ultrajante" a ideia de que o formato OOXML (Office Open XML) deva ser aceite como um padrão universal, argumentando que este serve apenas os interesses comerciais de uma única empresa.
Quando o Excel reescreve a genética humana
Um dos exemplos mais flagrantes apontados pela TDF sobre os perigos desta hegemonia envolve a comunidade científica. O comportamento padrão do Excel, que converte automaticamente certas entradas de texto em datas, causou danos reais em investigações sobre doenças genéticas.
Durante anos, genes com símbolos alfanuméricos como "MARCH1" (Membrane Associated Ring-CH-Type Finger 1) eram interpretados pelo software como datas, sendo convertidos automaticamente para "1-Mar". O mesmo acontecia com o gene "SEPT1", transformado em "1-Sep". Um estudo de 2016 revelou que cerca de um quinto dos artigos publicados na revista Genome Biology, que continham ficheiros suplementares de Excel, apresentavam erros atribuíveis a esta formatação automática.
A resposta da Microsoft a este problema foi lenta, considerando-o durante muito tempo como um nicho irrelevante. A situação atingiu um ponto tão crítico que, em 2020, o comité responsável pela nomenclatura genética humana (HGNC) viu-se forçado a renomear 27 genes — alterando, por exemplo, MARCH1 para MARCHF1 — apenas para evitar que o software corrompesse os dados. Só em 2023 é que a empresa lançou uma atualização para permitir desativar esta conversão automática, numa altura em que o dano à literatura científica já estava feito.
Um "padrão" refém do passado
A crítica da TDF vai muito além dos erros científicos, focando-se na própria estrutura do formato OOXML. Vignoli argumenta que a especificação é, na prática, impossível de implementar corretamente por terceiros, contendo cerca de 7.000 páginas de documentação complexa.
Mais grave ainda é o facto de o software da Microsoft não aderir ao seu próprio padrão "Strict" (Estrito), utilizando em vez disso uma variante "Transitional" (de Transição). Esta variante está repleta de dependências de código legado e proprietário. A especificação contém instruções que obrigam qualquer outro software a clonar comportamentos de versões antigas, com referências diretas a elementos como "autoSpaceLikeWord95" ou "shapeLayoutLikeWW8".
Segundo a análise detalhada no blog da The Document Foundation, isto significa que para um concorrente abrir corretamente um documento moderno, teria de replicar bugs e comportamentos do Word 95. Além disso, o formato continua a privilegiar Metafiles do Windows proprietários para gráficos, em detrimento de padrões abertos e universais como o SVG, perpetuando um ciclo de dependência difícil de quebrar.












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