
A expansão acelerada da inteligência artificial está a criar um novo desafio para gigantes como a Amazon, Microsoft e Google. Desta vez, a pressão não surge de entidades reguladoras ou vizinhos, mas sim dos próprios acionistas. De acordo com informações avançadas pela Reuters, os investidores estão a exigir dados concretos sobre a quantidade de água e eletricidade consumida pelos centros de dados nos Estados Unidos.
A discussão deixou de se focar apenas em promessas abstratas de sustentabilidade futura e rentabilidade. O debate centra-se agora em valores reais, no impacto local e no risco operacional, questionando se existirá energia e água suficientes para sustentar os investimentos colossais que estão a ser feitos na infraestrutura tecnológica.
O impacto local e o cancelamento de projetos
Durante anos, as grandes empresas tecnológicas promoveram o crescimento dos seus centros de dados como uma evolução natural do mercado da nuvem e, mais recentemente, da corrida pela inteligência artificial. No entanto, esta expansão está a esbarrar em limites físicos cada vez mais evidentes. Vários projetos multimilionários de centros de dados foram recentemente abandonados devido à forte oposição das comunidades locais, o que alterou o rumo da conversa. O foco passou da mera capacidade de processamento para questões críticas como o uso do solo, poluição e a pressão sobre as infraestruturas locais.
Os números ajudam a compreender a dimensão do desafio. Os centros de dados norte-americanos consumiram quase um bilião de litros de água em 2025, um valor que se equipara à procura anual de toda a cidade de Nova Iorque. Para agravar a situação, uma grande parte do gasto hídrico é indireta, estando associada à geração da eletricidade necessária para alimentar estas instalações. Um estudo de 2024 estimou este consumo indireto em cerca de 800 mil milhões de litros.
Perante um cenário em que um centro de dados não gera o mesmo risco numa zona com abundância de água face a outra com problemas de fornecimento, os investidores começaram a movimentar-se antes das habituais juntas da primavera para exigir uma transparência total.
Falta de transparência e métricas desiguais
A resposta das empresas a esta exigência tem sido desigual e carece de uma métrica comum para avaliar os custos e os riscos. A Google, por exemplo, partilha dados das suas instalações próprias e arrendadas, mas omite as de terceiros. A Microsoft divulga o consumo total de água, mas não especifica os valores por cada localização. Por sua vez, a Amazon não publica um valor global do uso de água, optando por apresentar métricas baseadas na unidade de energia nos seus relatórios de sustentabilidade.
Embora a adoção de sistemas de refrigeração em circuito fechado tenha sido um passo das tecnológicas para tentar reduzir o consumo, a medida não satisfaz a exigência de transparência local. As empresas terão agora de explicar com clareza quem assume o custo hídrico e energético em cada território, bem como a tensão deixada nas infraestruturas comunitárias. Para estas organizações, justificar a pegada ambiental está a tornar-se uma tarefa tão delicada e escrutinada quanto a apresentação dos relatórios de crescimento financeiro trimestral.












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