
Uma startup dedicada ao treino de modelos de inteligência artificial chamada Shift começou a oferecer serviços de limpeza gratuitos a residentes de Nova Iorque, com planos para expandir para cidades como Londres. No entanto, esta oferta inusitada tem um custo oculto. De acordo com informações avançadas pelo The Verge, a empresa exige permissão para gravar os funcionários enquanto esfregam pratos, limpam bancadas ou lavam o chão, de forma a reunir dados visuais valiosos para ensinar máquinas a realizar estas tarefas domésticas de forma autónoma.
O desafio de transpor a inteligência artificial para o mundo físico
Ao contrário dos geradores de texto ou imagem que inundaram a internet nos últimos anos, os robôs precisam de compreender e interagir com o mundo físico. Isto implica processar noções complexas de espaço, movimento, força, atrito e até a iluminação variável de um apartamento. É por este motivo que ações tão simples para um ser humano, como dobrar uma toalha ou agarrar num copo de água, têm sido incrivelmente difíceis de codificar e transferir para uma IA.
Ensinar estas máquinas exige volumes massivos de informação visual de alta qualidade. Enquanto os modelos de linguagem puderam absorver texto e imagens de toda a internet a uma escala industrial, as interações no mundo físico são consideravelmente mais difíceis e dispendiosas de capturar em grande escala sem invadir a privacidade ou pagar pelo processo.
Estratégias criativas para recolher informação valiosa
A Shift não é a única empresa a procurar alternativas criativas para ultrapassar este obstáculo técnico. Na Índia, a plataforma de serviços ao domicílio Pronto tem utilizado as casas dos clientes para gravar tarefas como cozinhar ou tratar da roupa, gerando polémica no mercado local e obrigando a concorrência a distanciar-se da prática.
Outras empresas, como a Human Archive, sediada em Silicon Valley, optam por pagar a prestadores de serviços independentes para usarem chapéus equipados com câmaras durante o trabalho. Estes dispositivos captam a ação na primeira pessoa, fornecendo a perspetiva exata de que os fabricantes necessitam para que os robôs aprendam a navegar no espaço. A Shift também trabalha diretamente com os consumidores e afirma já ter pago a dezenas de milhares de pessoas em 15 países para gravarem a sua rotina doméstica através de uma aplicação de telemóvel.
Existem ainda operações que recorrem a ambientes controlados, pagando a trabalhadores para repetirem a mesma ação física vezes sem conta, como transportar caixas ou organizar objetos, enquanto dezenas de sensores e câmaras registam cada milímetro do movimento de forma laboratorial.
A evolução da recolha de informação pessoal
A troca de privacidade e conveniência por um serviço não é um conceito propriamente novo. Ao longo dos anos, os consumidores habituaram-se a ceder detalhes pessoais e hábitos de consumo em troca de descontos em cartões de fidelidade, navegação otimizada ou serviços gratuitos em televisões inteligentes e aplicações móveis.
A verdadeira novidade reside no tipo de atividade e intimidade que as empresas tecnológicas estão agora dispostas a subsidiar. O cenário atual passa por oferecer uma limpeza gratuita à casa, conduzida por um ser humano com uma câmara na cabeça, para que, num futuro muito próximo, o consumidor possa comprar o robô treinado com essas imagens para fazer exatamente o mesmo serviço.












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