
A introdução do primeiro telemóvel da Apple no mercado norte-americano teve um impacto invulgar na demografia do país. Segundo um estudo recente publicado pela National Bureau of Economic Research, a chegada do iPhone às lojas contribuiu para uma descida nos nascimentos entre 2007 e 2011. A investigação sugere que a facilidade de acesso à internet e a mudança nos hábitos de entretenimento alteraram as prioridades das gerações mais jovens.
A ligação entre a rede móvel e os nascimentos
A análise baseou-se num fator histórico do mercado dos Estados Unidos: a exclusividade temporária de vendas através da operadora AT&T, que durou de junho de 2007 até fevereiro de 2011. Os investigadores cruzaram a área de cobertura desta rede com os dados de fecundidade locais para medir os efeitos práticos da adoção do equipamento na sociedade.
Os números recolhidos mostram que a presença da rede e do equipamento coincidiu com uma redução de 4,5% a 8% nos nascimentos na faixa etária dos 15 aos 19 anos, e de 3,2% a 6,6% entre os 20 e os 24 anos. De forma geral, os autores do documento defendem que a adoção deste smartphone específico justifica entre 33% e 52% da quebra total da taxa de fecundidade em mulheres dos 15 aos 44 anos.
Para explicar este fenómeno, a organização privada aponta para uma alteração drástica no comportamento social de toda uma geração. O aumento do tempo de ecrã terá reduzido os encontros presenciais entre amigos e a socialização típica da idade, enquanto o acesso facilitado a conteúdos para adultos poderá ter diminuído a atividade sexual regular entre os utilizadores.
Uma correlação que ignora a crise económica
Apesar dos dados apresentados, a comunidade tecnológica tem levantado dúvidas sobre as conclusões diretas do documento. Os próprios investigadores admitem que o equipamento móvel não é o único culpado pela quebra de natalidade no período analisado, ressalvando que outras dinâmicas estiveram naturalmente em jogo.
O principal ponto de crítica recai sobre o momento em que a tecnologia começou a massificar-se no retalho. O ano de 2008 foi marcado por uma das maiores crises financeiras mundiais, um evento com consequências devastadoras que destruiu a estabilidade financeira de milhões de famílias e forçou o adiamento natural de planos para ter filhos. Atribuir esta retração demográfica de forma tão pesada a um dispositivo de bolso acaba por roçar numa correlação espúria, cenário onde dois fatores coincidem no tempo sem terem obrigatoriamente uma relação direta de causa e efeito.
Existe ainda um elemento socioeconómico importante na adoção inicial do dispositivo. Os primeiros compradores tendiam a apresentar níveis de escolaridade mais altos e rendimentos superiores, características que os estudos demográficos já associam historicamente a taxas de natalidade mais baixas. Para o contexto europeu e português, este tipo de análise serve como um excelente exercício sobre a forma como tentamos medir o impacto prático da tecnologia na rotina humana, demonstrando que as estatísticas de consumo raramente contam a história completa das nossas escolhas pessoais.












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