
O magnata Elon Musk voltou a surpreender o mercado ao revelar o seu plano de transferir o processamento computacional da Terra para a órbita terrestre. De acordo com informações avançadas pelo portal italiano HWUpgrade, o responsável máximo da SpaceX afirmou durante o Fórum Económico Mundial em Davos que o espaço será o local mais barato para instalar servidores de inteligência artificial, indicando que a proposta se tornará real num prazo de apenas dois a três anos.
O projeto, designado por AI1, representa a primeira geração de centros de dados orbitais da empresa aeroespacial. Logo após a declaração, foi submetido um pedido junto da entidade reguladora de telecomunicações norte-americana (FCC) para colocar um milhão de satélites dedicados ao processamento de dados numa baixa órbita terrestre, entre os 500 e os 2000 quilómetros de altitude. Para os consumidores, isto poderia teoricamente traduzir-se numa rede global mais robusta, mas o anúncio esbarra imediatamente em desafios operacionais de enorme dimensão e no histórico de prazos falhados pelo executivo, como aconteceu com a condução autónoma ou a viagem a Marte.
A matemática impossível dos lançamentos espaciais
Atualmente, orbitam a Terra cerca de 14500 satélites ativos, com dois terços dessa frota a pertencerem à constelação Starlink. Atingir a meta de um milhão de equipamentos exige um ritmo de fabrico e lançamento muito superior ao que a indústria aeroespacial consegue suportar.
Mesmo utilizando o foguetão Starship no limite da sua capacidade para transportar sessenta satélites por missão, seriam necessárias 16666 viagens exclusivas para completar o projeto. Considerando a taxa de produção atual de quatro mil unidades anuais, demoraria um quarto de século a concluir a rede, assumindo até que a capacidade fabril fosse multiplicada por dez.
O obstáculo da física e o domínio do mercado
A logística partilha o palco de dificuldades com a física e a termodinâmica. Uma startup do setor, que solicitou licenciamento para uma rede menor, testou o envio de uma placa gráfica de topo para o vácuo espacial e concluiu que o dissipador de calor não era suficiente para a manter em funcionamento máximo. Um único destes componentes consome 700 W de energia e requer um radiador com quase um metro e meio quadrado para operar a 60 °C. Para alimentar um centro de dados orbital de 100 megawatts, seriam necessários 2500 enormes radiadores. Esta proliferação massiva de painéis arrisca agravar o Síndrome de Kessler, potenciando colisões em cadeia, e prejudica a observação astronómica a partir do solo.
Esta visão megalómana cria, no entanto, uma enorme conveniência para o ecossistema construído pelo executivo. O projeto alinharia os interesses das suas várias companhias: as máquinas seriam tratadas por uma empresa, os lançamentos por outra, e a alimentação através de painéis solares viria de uma terceira. Analistas do setor, como Michael Pierce da Technology Strategy Partners, estimam que a paridade de custos entre servidores no espaço e na Terra levará entre cinco a dez anos a ser alcançada. Os desafios de latência e sincronização significam também que, numa fase inicial, estes satélites estarão limitados à execução e inferência de modelos já criados, deixando de fora a exigente fase de treino das redes.












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