
A durabilidade dos módulos de energia sempre foi um dos maiores receios na transição para a mobilidade elétrica, mas os números recentes mostram que a realidade é muito diferente das estimativas pessimistas da indústria automóvel. Segundo os dados divulgados pela Recurrent, os veículos elétricos mantêm, em média, até 95% da sua autonomia original após cinco anos de circulação nas estradas.
O fim do mito da degradação acelerada
Os primeiros céticos dos veículos elétricos previam uma perda de capacidade muito rápida. Em 2010, quando o Nissan Leaf original foi lançado, a ausência de tecnologia de arrefecimento provocou perdas de autonomia a um ritmo alarmante. Entre 2011 e 2016, cerca de 8,5% dos automóveis elétricos acabaram por exigir a substituição total da bateria, refere o estudo de 2025 da Recurrent.
Este histórico alimentou o receio que ainda hoje afasta muitos condutores. Um inquérito de 2025 da empresa de pesquisa AutoPacific aponta o medo dos custos de substituição como o motivo número um para evitar a compra de um modelo movido a bateria. Contrariando esta perceção, a análise a veículos construídos a partir de 2022 revela que apenas 0,3% necessitaram de troca do componente central.
A Geotab, empresa especializada em dados automóveis que monitorizou mais de 22.700 veículos elétricos, concluiu que as baterias modernas degradam-se a uma taxa média de apenas 2,3% ao ano. A este ritmo, é perfeitamente realista que os módulos de energia atuais durem 20 anos ou mais.
O que mudou na engenharia dos módulos?
A diferença entre as previsões iniciais de laboratório e o desempenho no mundo real explica-se pelos avanços técnicos. Viet Nguyen-Tien, investigador focado em mobilidade elétrica da London School of Economics, explicou ao Wall Street Journal que o sucesso atual assenta em três melhorias centrais: uma composição química superior à das primeiras gerações, sistemas de gestão mais inteligentes e uma regulação térmica muito mais eficaz.

Como consequência destes avanços e da economia de escala, os preços desceram mais de 90% desde 2010, segundo um relatório da BloombergNEF. O design das baterias atuais também foi otimizado para a reparabilidade, permitindo substituir células individuais em vez de descartar a unidade inteira.
Outro fator crucial reside na limitação estrutural dos testes laboratoriais, que costumam descarregar a energia de forma constante e implacável até ao limite. Num teste levado a cabo pelo SLAC-Stanford Battery Center, onde 92 baterias comerciais de iões de lítio foram testadas ao longo de dois anos com perfis que imitam a condução real — incluindo paragens no trânsito, acelerações curtas, travagem regenerativa e períodos de descanso —, verificou-se que a simulação prática prolonga a vida útil do componente em até 38% face ao método tradicional de descarga contínua.
Como maximizar a autonomia e proteger o desgaste
Apesar da robustez confirmada pelos estudos, a longevidade final também depende diretamente dos hábitos de utilização, sobretudo no mercado português, onde os postos de carregamento ultrarrápido nas autoestradas são cada vez mais utilizados. A análise da Geotab identificou os hábitos de carregamento como o maior fator controlável na saúde do veículo.
Os elétricos que utilizam frequentemente o carregamento rápido em corrente contínua (acima de 100 kW) apresentam uma degradação anual de até 3% — exatamente o dobro da taxa observada nos automóveis que dependem de soluções de menor potência para o dia a dia. Para além da potência de carga, manter a bateria entre os 20% e os 80% de capacidade durante a utilização rotineira reduz significativamente o desgaste das células a longo prazo.
O espaço entre os receios iniciais sobre a fiabilidade e a realidade atual nas estradas é cada vez maior. À medida que as taxas de degradação descem e os custos de substituição caem, os argumentos a favor de abraçar o ecossistema elétrico fortalecem-se todos os anos.












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