
A Qualcomm reviu em baixa as suas perspetivas de lucro ajustado para o quarto trimestre, impulsionada por uma queda mais acelerada do que o previsto nas receitas geradas pela Apple. Segundo avançou a Reuters, a fabricante de chips planeia compensar este recuo com uma aposta forte fora do ecossistema dos smartphones, concentrando os seus esforços nos centros de dados com inteligência artificial (IA) e nos processadores para o setor automóvel.
Nas projeções oficiais, a empresa norte-americana estima um lucro ajustado entre 2,05 e 2,25 dólares por ação no quarto trimestre, um valor que fica aquém da média de 2,36 dólares prevista pelos analistas da LSEG. Quanto à faturação, as previsões apontam para um intervalo entre 9,7 mil milhões e 10,5 mil milhões de dólares, contrastando com a expectativa do mercado de 10,02 mil milhões de dólares. A reação de Wall Street foi imediata, com as ações da Qualcomm a recuarem mais de 4% nas negociações pós-mercado, enquanto os títulos da Apple se mantiveram praticamente estáveis.
A rutura na cadeia de fornecimento e o aumento de preços
A presença da fabricante na próxima geração do iPhone será severamente impactada. A empresa confirmou que as restrições na cadeia de abastecimento vão atirar a sua quota de componentes nestes dispositivos para um nível significativamente abaixo da anterior estimativa de 20%. "É uma questão de disponibilidade de fornecimento", afirmou o CEO da Qualcomm, Cristiano Amon.
Para contornar a pressão sobre as margens de lucro gerada pelo agravamento dos custos de produção, a marca vai encarecer os seus produtos a partir de 1 de setembro. "Estamos apenas a repassar os grandes aumentos de custos que tivemos", explicou Amon, sublinhando que os ajustes serão negociados individualmente com cada cliente. "O desfasamento temporário entre custo e preço causa uma ligeira queda temporária na margem bruta", acrescentou. Para o mercado europeu e português, esta estratégia corporativa da Qualcomm significa que o aumento da produção refletir-se-á quase inevitavelmente num encarecimento geral dos futuros telemóveis de topo que cheguem às prateleiras no final do ano.
Os centros de dados assumem o controlo da operação
O rumo estratégico da tecnológica sofreu uma alteração profunda. Akash Palkhiwala, diretor financeiro da empresa, garantiu que, até ao ano fiscal de 2027, a maior fatia das receitas virá de áreas externas aos telemóveis. Este crescimento deverá neutralizar integralmente a perda de receita relacionada com a Apple a partir do ano fiscal de 2026. A meta traçada para os centros de dados com IA é ambiciosa: faturar 5 mil milhões de dólares em receita até 2027 e disparar para os 15 mil milhões de dólares até 2029.
"Nós meio que substituímos a Apple pelo centro de dados", afirmou Amon de forma perentória. A fabricante já arrancou com a produção de wafers para dois contratos de chips personalizados com clientes de hiperescala e concluiu a criação do seu primeiro chip de computação de alta largura de banda, que tem estreia no mercado agendada para meados de 2027.
Para Bob O'Donnell, analista-chefe da TECHnalysis Research, o plano ilustra uma transição crítica. "A boa notícia a longo prazo é que a empresa está rapidamente a voltar-se para receitas que não sejam de telemóveis, com números recordes em chips para a indústria automóvel e o lançamento dos seus primeiros produtos importantes para centros de dados ainda este ano", explicou.
Resultados trimestrais perante as oscilações do universo Android
No terceiro trimestre fiscal, a Qualcomm registou receitas de 9,95 mil milhões de dólares. Embora isto traduza uma descida de 4% face ao período homólogo do ano anterior, o valor superou as estimativas de 9,67 mil milhões de dólares traçadas pelos analistas. O lucro ajustado fixou-se em 2,21 dólares por ação, situando-se ligeiramente abaixo dos 2,23 dólares previstos. A divisão de componentes para smartphones desceu 20%, gerando 5,09 mil milhões de dólares, mas ainda assim bateu as projeções iniciais.
No atual cenário Android, a retoma das vendas está a ser acompanhada por uma mudança clara no comportamento dos consumidores: perante o atual preço dos equipamentos, os clientes estão a optar por modelos premium mais básicos ou a manter versões mais antigas. "Houve uma mudança no mix em relação ao que esperávamos", justificou o líder da companhia.












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