
A inovação médica acaba de dar um salto gigantesco com um novo marco regulatório no continente asiático. A Administração Nacional de Produtos Médicos da China deu luz verde ao primeiro dispositivo comercial de interface cérebro-computador invasivo do mundo. De acordo com as informações avançadas pela China News, com base em relatos da Bloomberg, esta decisão coloca uma empresa sediada em Xangai na liderança isolada desta corrida tecnológica, deixando a concorrência norte-americana para trás.
A aprovação de comercialização foi concedida à Borui Kang Medical Technology, também conhecida internacionalmente como Neuracle Technology, focando-se no seu sistema implantável NEO. O grande objetivo deste equipamento passa por devolver a capacidade de agarrar objetos com as mãos a pacientes adultos que sofram de paralisia parcial.
Como funciona o sistema NEO
O foco do sistema NEO é ajudar pacientes com idades compreendidas entre os 18 e os 60 anos que tenham lesões na medula espinal cervical (entre as vértebras C2 e C6) que resultem em tetraplegia. Para serem elegíveis para a intervenção, a condição clínica do paciente deve estar estabilizada há pelo menos seis meses. O conjunto completo do dispositivo é composto por um implante, um kit de elétrodos, um transceptor de sinais, uma luva pneumática, ferramentas cirúrgicas especializadas e o respetivo software de descodificação.
A grande diferença face a alternativas mediáticas, como a da Neuralink, está na forma menos invasiva como o equipamento interage com o cérebro. Em vez de penetrar o tecido cerebral diretamente com os elétrodos, o sistema NEO aposta num posicionamento epidural. Na prática, um implante do tamanho de uma moeda é colocado num pequeno sulco desenhado no crânio, mantendo os elétrodos de fora da dura-máter.
Esta abordagem foi pensada para garantir uma excelente qualidade do sinal neural, ao mesmo tempo que reduz drasticamente o risco cirúrgico e a probabilidade de rejeição biológica. Além disso, a transmissão de energia e de sinal é feita sem fios por campo próximo, o que elimina a necessidade de ter uma bateria implantada no corpo do utilizador.
Ensaios clínicos e a corrida tecnológica
O caminho até esta aprovação comercial pioneira foi extenso. O primeiro procedimento em humanos ocorreu no Hospital Xuanwu, em Pequim, em outubro de 2023, desenvolvido numa parceria estreita com a equipa do departamento de engenharia biomédica da Universidade Tsinghua. Mais tarde, em maio de 2025, arrancou um ensaio clínico que abrangeu 11 hospitais a nível nacional e que permitiu concluir 32 cirurgias em apenas 78 dias.
Os resultados revelaram uma taxa de resposta de 100% nos movimentos de preensão assistidos. Os pacientes registaram ainda uma melhoria média de 9,06 pontos na avaliação internacional Action Research Arm Test passados apenas três meses. Durante os quase 8.000 dias acumulados de implantes ativos nos 32 participantes, não foi registado qualquer evento adverso associado ao funcionamento do dispositivo.
Este avanço surge numa altura em que o desenvolvimento destas interfaces é uma autêntica frente de batalha tecnológica entre Pequim e Washington. O governo chinês já tinha classificado as interfaces cérebro-computador como uma "indústria do futuro" estratégica, tendo divulgado um plano de desenvolvimento em agosto de 2025 para atingir avanços significativos até 2027. Este impulso ajudou as empresas locais a captar mais de 5 mil milhões de yuans (aproximadamente 650 milhões de euros) em 28 rondas de financiamento até novembro de 2025.
Do outro lado do mundo, empresas norte-americanas como a Neuralink já realizaram implantes em vários pacientes, mas continuam a aguardar a cobiçada aprovação comercial por parte da FDA. Outras concorrentes, como a Paradromics e a Synchron, permanecem ainda na fase de ensaios clínicos. A Borui Kang, por sua vez, não quer abrandar o ritmo: a empresa prepara-se para a sua primeira aplicação clínica oficial num paciente ainda durante este ano e tenciona entrar na bolsa STAR Market de Xangai.












Nenhum comentário
Seja o primeiro!