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criptomoedas

A ideia de que os detentores de moedas digitais rejeitam o dinheiro físico e o sistema financeiro tradicional acaba de ser contrariada. De acordo com um documento de trabalho do Banco Central Europeu, assinado pelo economista Alejandro Zamora-Pérez, os entusiastas dos ativos digitais guardam mais notas em casa do que a restante população, desmontando o mito de que o universo cripto serve apenas para fugir ao controlo das instituições centrais.

O verdadeiro perfil do utilizador

A investigação recolheu dados de quase 40 mil adultos em 17 países da Zona Euro e traçou um retrato claro de quem compra estes ativos. Longe de serem rebeldes contra o sistema, os investidores são maioritariamente homens, com cerca de 39 anos, formação universitária e experiência prévia nos mercados financeiros.

Os dados mostram que 51% destes utilizadores guardam reservas de numerário nas suas residências, um valor consideravelmente superior aos 39% registados na amostra geral da população. Estes indivíduos veem as moedas digitais como mais uma ferramenta de diversificação das suas carteiras de investimento, onde a posse de instrumentos financeiros tradicionais é o dobro da média, e não como um substituto absoluto do dinheiro em papel.

Privacidade em vez de rapidez

O documento aponta que o uso de ativos digitais para pagamentos diários é residual, representando menos de 1,5% da população analisada. Ao contrário do que se possa pensar, este pequeno grupo de utilizadores transacionais não procura a rapidez ou a conveniência dos meios digitais, mas sim a privacidade. O objetivo principal é replicar o anonimato característico das notas e moedas físicas, evitando o rastreio inerente às transferências bancárias regulares.

Para a esmagadora maioria, no entanto, a lógica é puramente especulativa. A preferência recai em manter o dinheiro físico para as despesas correntes e para assegurar liquidez imediata, deixando os ativos digitais para investimentos de risco.

O refúgio nas crises e o desafio do euro digital

A coexistência pacífica entre os dois mundos sofre alterações drásticas em momentos de instabilidade. O estudo utilizou a pandemia como caso de análise e concluiu que o aumento da incerteza levou as famílias a concentrarem-se na segurança da moeda emitida pelo banco central. Quem reforçou as reservas de dinheiro físico durante a crise apresentou uma probabilidade cerca de dez pontos percentuais menor de deter ativos digitais. Este comportamento evidencia que as criptomoedas falham como reserva de valor e meio de troca em períodos críticos.

Estas conclusões servem também de orientação teórica para o desenvolvimento de uma moeda digital europeia. O investigador salienta que, para ter sucesso transacional, um euro digital precisará de focar-se na resiliência, na simplicidade e na privacidade, características fortes do dinheiro físico, em vez de tentar apenas competir em velocidade com serviços corporativos já estabelecidos no mercado, como o Apple Pay ou o Google Pay.

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