
O realizador Christopher Nolan, que domina atualmente as bilheteiras com a sua nova versão do clássico "The Odyssey", assumiu que considera muito encorajadora a forte desconfiança do público mais jovem face à inteligência artificial. Numa conversa com o criador de conteúdos Hugo Travers para o HugoDécrypte, o cineasta britânico vincou a necessidade de questionar ativamente o avanço vertiginoso desta tecnologia.
O cavalo de Troia feito de vidro
Quando desafiado a refletir sobre se o formato se poderia tornar uma ameaça obscura e camuflada no nosso quotidiano, o vencedor do Óscar recorreu à figura central do seu próprio filme. Nolan confirmou entre risos que vê a IA como um cavalo de Troia, com a diferença de que todos sabem que os gregos estão lá dentro [26:07], descrevendo-a antes como uma estrutura transparente e feita de vidro [27:16].
O autor mostrou-se surpreendido com a repulsa extrema por parte dos consumidores, destacando nunca ter visto uma inovação crescer tão rapidamente e sofrer tamanha rejeição [26:20]. A reação dos utilizadores, nomeadamente de pessoas da idade dos seus filhos, que já cunharam o termo "lixo de IA" para categorizar vídeos artificiais, reflete o que o realizador define como um ceticismo muito saudável [26:47]. A perspetiva do cineasta sublinha que a verdadeira utilidade destas ferramentas nasce do escrutínio constante sobre os seus propósitos e sobre as motivações de quem as fornece, repudiando a fé cega nos interesses da indústria [26:54].
A defesa do cinema em Hollywood
Embora não tenha detalhado os perigos específicos que associa à inteligência artificial, a temática tem estado no centro das grandes tensões em Hollywood. A proteção contra os modelos generativos foi uma das principais batalhas durante as greves de argumentistas e atores em 2023. O Sindicato dos Realizadores da América, presidido pelo próprio Nolan, também assegurou salvaguardas decisivas no seu último contrato laboral.
Conhecido por evitar o uso de telemóveis e manter uma visão tradicional, o criador assume-se como um "tecno-cético" em oposição ao rótulo de tecnófobo. Esta posição ganha forma prática no seu trabalho recente, uma vez que "The Odyssey" marca a primeira longa-metragem a ser filmada inteiramente com película e câmaras Imax. Para o realizador, o compromisso com os formatos antigos resulta da convicção de que o suporte analógico representa a visão do olho humano de forma superior a qualquer sistema digital disponível.
Esta defesa cerrada da herança cinematográfica não significa uma oposição total à inovação no setor. Nolan esclareceu numa entrevista recente ao The New York Times que abraça novas ferramentas tecnológicas com regularidade, criticando apenas a pressão comercial para substituir opções antigas que continuam plenamente operacionais. "Foi o que vi na minha indústria — atirar o bebé fora com a água do banho. Quase perdemos a película!", alertou o britânico. A agitação em redor da fita estende-se também a outras esferas, com o CEO da SpaceX, Elon Musk, a partilhar publicações furiosas nas redes sociais devido à escolha de um elenco que inclui atores transgénero e não-brancos.












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