
O mercado da música digital está a sofrer uma transformação sem precedentes com o avanço dos algoritmos. A Deezer revelou que as faixas geradas por inteligência artificial (IA) já representam mais de 50% dos downloads na sua plataforma de streaming. Perante esta avalanche de conteúdos automatizados, a empresa anunciou medidas drásticas para proteger os criadores humanos e a sustentabilidade do modelo de negócio.
A estratégia da operadora francesa vai envolver a eliminação sistemática de todas as músicas criadas por IA que não tenham registado qualquer reprodução nos últimos seis meses. Adicionalmente, serão banidas as faixas associadas a esquemas de streams fraudulentos, que visam inflacionar artificialmente as audições para desviar receitas de direitos de autor.
O crescimento imparável da música automatizada
A proliferação deste tipo de conteúdos tem registado uma aceleração impressionante nos últimos anos. De acordo com os dados partilhados pela plataforma de streaming, o volume de carregamentos diários atingiu o seu pico histórico em junho de 2026, alcançando uma média mensal de 90 000 faixas enviadas por dia.
A evolução cronológica divulgada pela empresa ilustra bem a dimensão do fenómeno:
Janeiro de 2025: 10 000 temas diários (10% do total de carregamentos).
Abril de 2025: 20 000 temas diários (18% do total de carregamentos).
Setembro de 2025: 30 000 temas diários (28% do total de carregamentos).
Novembro de 2025: 50 000 temas diários (34% do total de carregamentos).
Janeiro de 2026: 60 000 temas diários (39% do total de carregamentos).
Abril de 2026: 75 000 temas diários (44% do total de carregamentos).
Alexis Lanternier, CEO da empresa, defendeu que a tecnológica tem estado na linha da frente no combate à fraude e à diluição de pagamentos associada à música de IA há quase dois anos. O responsável máximo frisou que, com metade dos uploads diários a pertencerem a algoritmos, são necessárias ações adicionais para salvaguardar os direitos dos artistas e compositores reais, mantendo o foco nas produções que os fãs verdadeiramente adoram.
Respostas divergentes na indústria do streaming
A rápida ascensão da IA musical colocou os serviços de distribuição digital perante um dilema complexo, não existindo ainda uma resposta consensual na indústria. Enquanto o Bandcamp optou por banir por completo estas faixas, o Tidal preferiu cortar totalmente a monetização dos conteúdos virtuais.
Por outro lado, gigantes tecnológicos como a Apple implementaram um sistema de etiquetagem voluntária, ao passo que o Spotify desenhou uma política própria que avalia a percentagem de tecnologia utilizada na conceção da obra.
Para lidar com o problema, a plataforma francesa começou a rotular estes conteúdos no ano passado, recorrendo a uma tecnologia de deteção própria capaz de identificar faixas criadas por sistemas populares como o Suno e o Udio — duas startups atualmente envolvidas em processos judiciais de direitos de autor. Esta ferramenta de análise foi disponibilizada a outras empresas rivais no início do ano e, no mês passado, a tecnológica lançou um utilitário capaz de rastrear listas de reprodução da Apple Music e do Spotify em busca de música gerada por computadores.












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