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venda de livros

O mercado de livros usados no Reino Unido está a viver uma época de ouro inesperada, alimentada pela corrida à inteligência artificial. Segundo um relatório avançado pela BBC, os alfarrabistas britânicos estão a registar picos de faturação, à medida que as obras publicadas antes de 2022 se tornam produtos premium para treinar modelos de linguagem. O reverso da medalha, no entanto, é o destino final de muitos destes exemplares: a destruição física.

A caça à escrita humana genuína

Até perto de 2022, a garantia de que um texto tinha sido redigido exclusivamente por humanos era quase absoluta. Hoje, as empresas tecnológicas necessitam desesperadamente dessa pureza literária para continuar a treinar a sua IA, evitando que os novos modelos consumam texto já gerado por máquinas com padrões repetitivos.

Este fenómeno traduz-se em lucros reais para comerciantes independentes. Stuart Manley, fundador da Barter Books, revelou que faturou numa única encomenda recente o equivalente ao que normalmente faz numa semana inteira de trabalho. Do mesmo modo, David Tobin, responsável pela Walden Books em Londres, confirmou estar a atravessar um forte boom financeiro. A ironia para os vendedores reside no destino das obras: embora seja positivo escoar títulos acumulados há vários anos, existe a forte convicção de que estes livros não voltarão a ser lidos.

Projeto Panama e o fim das cópias físicas

A Anthropic, uma das principais criadoras de algoritmos do mercado, aceitou pagar 1,36 mil milhões de euros para encerrar um processo judicial coletivo por uso de cópias ilegais no treino da sua infraestrutura. Para contornar futuros problemas com direitos de autor, a tecnológica adotou o "Projeto Panama", um sistema focado na digitalização destrutiva.

O processo exige o sacrifício do formato original: as lombadas dos livros são cortadas a lâmina, as páginas digitalizadas e, no final, o exemplar é totalmente destruído. Como passa a existir apenas uma cópia antes e depois da digitalização, a prática enquadra-se legalmente na doutrina de uso justo, afastando as acusações de pirataria. A mecânica tem levantado críticas, agravadas pela recente divulgação de vídeos que documentam o desmembramento dos livros num ambiente de guilhotina industrial.

O dilema da preservação histórica

O debate agudiza-se quando a trituração ultrapassa obras massificadas e atinge artefactos de valor singular. Para os colecionadores e historiadores em Portugal e no resto da Europa, esta nova procura significa que o mercado de antiguidades pode encolher drasticamente, apagando do mapa edições que de outra forma sobreviveriam mais algumas décadas.

Derek Walker, proprietário da livraria McNaughtan’s em Edimburgo, contextualiza a perda. O especialista nota que a destruição de um texto académico recente, impresso em apenas 100 cópias — com 75 delas já salvaguardadas em bibliotecas de acesso público — não representa uma catástrofe cultural irreparável. O cenário torna-se alarmante em casos extremos, tendo o livreiro lembrado que já vendeu o único exemplar sobrevivente conhecido de uma edição do século 18. Documentos técnicos raros, poeirentos e nunca antes digitalizados são o derradeiro recurso para a superinteligência das tecnológicas, ocultando conhecimento restrito que, ao ser absorvido pelas empresas fronteiriças de inteligência artificial, será extinto sem que a humanidade alguma vez se aperceba da sua eliminação.

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