
O clássico jogo Doom, lançado originalmente em 1993, continua a manter a sua reputação de ser capaz de ser executado em praticamente qualquer dispositivo eletrónico com um ecrã. Depois de já ter sido visto em testes de gravidez, tratores e até blocos de notas do Windows, o "pai" dos FPS invadiu agora o mundo da culinária. O responsável pela façanha é Aaron Christophel, um modder que conseguiu instalar e correr o jogo numa panela elétrica Krups Cook4Me.
O projeto teve início de uma forma curiosa, quando Christophel decidiu analisar as capacidades de conectividade do eletrodoméstico. Ao investigar a rede Wi-Fi, detetou um endereço MAC pertencente à Espressif, o que indicava a presença de um chip da família ESP, um componente muito popular no desenvolvimento de projetos para a Internet das Coisas (IoT). Esta descoberta levou-o a desmontar o equipamento para perceber o que realmente controlava o dispositivo.
Engenharia reversa revela hardware surpreendente
Ao abrir a Cook4Me, o modder deparou-se com uma arquitetura de hardware dividida em dois blocos distintos. A base da panela utiliza um microcontrolador STM para gerir as funções críticas de segurança e cozinha, como o controlo do aquecimento e a leitura dos sensores de temperatura. Esta separação física acabou por ser uma vantagem, garantindo que as modificações de software na interface não colocariam em risco a segurança física do aparelho.
A verdadeira "magia" acontece no módulo frontal, onde reside o ecrã tátil e o cérebro multimédia do sistema. Este módulo é alimentado por um processador Renesas R7S721031VZ, baseado na arquitetura ARM, que se revelou surpreendentemente capaz.
Acompanhado por 128 MB de memória RAM e 128 MB de armazenamento flash, este hardware supera largamente os requisitos mínimos do jogo original. O dispositivo conta ainda com um controlador de toque capacitivo, um buzzer para o som e até uma ranhura para cartões SD escondida no interior, o que facilitou a expansão do armazenamento necessário para os ficheiros do jogo.
Do firmware original ao massacre de demónios
O maior obstáculo encontrado por Christophel foi a encriptação da memória flash do chip ESP32, que impedia uma modificação direta e simples. Para contornar esta barreira, o modder optou por uma abordagem de hardware, acedendo diretamente ao chip Renesas através da interface SWD. Utilizando um programador de hardware específico, conseguiu extrair o código binário original para análise.
Através da engenharia reversa dos registos de inicialização e dos comandos do painel LCD, foi possível compreender como o sistema desenhava as imagens no ecrã. Com esta informação, Christophel criou um firmware personalizado que substitui a interface padrão de receitas da Krups pelo ambiente de jogo.
Para tornar o título jogável, foi desenvolvido um "wrapper" de software que traduz os comandos do jogo para as entradas do ecrã tátil. Os controlos foram mapeados em diferentes zonas do visor, permitindo ao utilizador mover-se e disparar apenas com toques no ecrã do robô de cozinha.
O resultado final, demonstrado no vídeo publicado no YouTube, mostra o jogo a correr com uma fluidez notável, sem quebras de desempenho visíveis. Este projeto não só reforça a "regra de ouro" da comunidade hacker — se tem ecrã e processador, corre Doom — como também destaca o poder computacional muitas vezes subaproveitado nos eletrodomésticos modernos que temos nas nossas casas.










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