
Em 2025, os condutores nas estradas de Espanha enfrentaram um cenário sem precedentes no que diz respeito à fiscalização. Com mais de 6,1 milhões de infrações registadas num único ano, o equivalente a uma coima a cada cinco segundos, a faturação do estado vizinho ultrapassou a impressionante marca dos 540 milhões de euros. No entanto, e de acordo com a informação avançada pelo jornal La Razón, este aumento massivo na vigilância e na aplicação de sanções automatizadas não se traduziu numa melhoria proporcional e direta da segurança rodoviária.
O peso de uma vigilância implacável
Os números presentes no recente anuário estatístico da Direção-Geral de Trânsito espanhola mostram uma realidade de controlo extremo. A barreira dos seis milhões de denúncias foi quebrada pela primeira vez desde que os registos históricos começaram em 1961. Para colocar a dimensão desta recolha em perspetiva, a Andaluzia liderou a tabela com mais de um milhão e meio de notificações, logo seguida pelas regiões de Valência e Madrid.
A justificação do governo espanhol para esta ofensiva assenta na necessidade vital de reduzir a sinistralidade nas vias convencionais e rápidas. Para isso, investiram mais de um milhão de euros em novos radares dinâmicos, adicionando 122 pontos de controlo de velocidade. A vigilância estende-se também aos céus, com a unidade aérea a celebrar 65 anos e a recorrer a equipamento tecnológico de ponta, como drones e helicópteros, para conseguir registar cerca de 25 mil infrações anuais.
Multas em alta mas os acidentes persistem
A ironia que tem revoltado as associações de automobilistas no meio desta megaoperação de controlo é que as estradas não ficaram magicamente mais seguras com o aumento das autuações. Durante a recente operação especial da Páscoa de 2026, ocorreram 17,3 milhões de viagens no país, resultando em 30 vítimas mortais — um aumento de três fatalidades face ao período homólogo do ano anterior. Importa notar que nove em cada dez destas perdas trágicas aconteceram precisamente em vias secundárias.
Especialistas da área, como Pedro Javaloyes, da plataforma Dvuelta, apontam o dedo a uma política que parece estar excessivamente obcecada com a limitação de velocidade para garantir faturação. Segundo os críticos, o excesso de velocidade é a infração mais detetada pelas autoridades simplesmente porque é a mais fácil e rentável de apanhar pelas máquinas automáticas, deixando de lado fatores cruciais e letais, como o uso do telemóvel ao volante, a falta de atenção ou a degradação grave do próprio alcatrão. Se a tática de multar fosse puramente pedagógica e tivesse um caráter dissuasor efetivo, os números teriam obrigatoriamente de descer com o passar do tempo.
Falta de presença humana nas vias
Onde o estado investe pesado em tecnologia automatizada e radares silenciosos, corta de forma drástica no elemento humano. A Associação Unificada de Guardas Civis espanhola relatou uma carência grave de efetivos de patrulha, apontando para a perda de cerca de mil agentes no terreno ao longo da última década. Estes profissionais são frequentemente defendidos como a presença mais eficaz para prevenir acidentes em tempo real e para conseguir avaliar as causas profundas dos sinistros no exato momento e local em que ocorrem.
Em última análise, a abordagem estatal de focar quase exclusivamente num sistema fechado e automatizado de punição está a ser alvo de um intenso escrutínio público. Enquanto o país não implementar um modelo de análise rigoroso, neutro e independente para estudar os verdadeiros motivos por trás de cada acidente grave — de forma semelhante ao que já acontece na investigação da aviação comercial —, a conta bancária das entidades públicas continuará a engordar, mas as estradas continuarão a cobrar o seu preço mais elevado.












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