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Buraco negro

Uma equipa de investigadores liderada pelo Instituto Galego de Física de Altas Energias (IGFAE), da Universidade de Santiago de Compostela, alcançou um marco histórico na astrofísica. Conforme detalhado no comunicado oficial da instituição, os cientistas conseguiram medir, pela primeira vez de forma combinada, tanto a velocidade como a direção do recuo de um buraco negro resultante da fusão de dois outros colossos cósmicos. O estudo, publicado na conceituada revista Nature Astronomy, oferece uma nova perspetiva sobre a forma como as ondas gravitacionais transportam energia e influenciam o movimento destas entidades no espaço.

O impacto invisível das ondas gravitacionais

Previstas por Albert Einstein em 1916, as ondas gravitacionais são subtis ondulações no tecido do espaço-tempo, geradas durante os eventos mais violentos do Universo, como a colisão de buracos negros. Durante este processo, as ondas transportam consigo energia e momento linear.

No entanto, a emissão destas ondas raramente ocorre de forma perfeitamente simétrica em todas as direções. Esta assimetria provoca um desequilíbrio que dá um "empurrão" — ou recuo — ao buraco negro recém-formado. A intensidade deste recuo está diretamente ligada às massas e à rotação dos objetos originais, enquanto a direção final depende da orientação de todo o sistema no espaço.

Até agora, os cientistas conseguiam determinar apenas uma fração deste puzzle cósmico: a inclinação orbital. O grande obstáculo residia no cálculo do ângulo azimutal. A equipa do IGFAE conseguiu ultrapassar esta barreira demonstrando que certas características específicas presentes no sinal gravitacional, conhecidas como modos de ordem superior, contêm a informação em falta necessária para mapear a trajetória exata do recuo.

GW190412: Um empurrão cósmico a mais de 50 km/s

Para testar a eficácia deste novo método, os investigadores focaram-se num evento real denominado GW190412. Detetado em 2019 pelos observatórios Advanced LIGO e Virgo, este evento envolveu a fusão de dois buracos negros com massas bastante distintas, resultando num sinal rico nestes padrões de ondas mais complexos.

Recorrendo a simulações informáticas avançadas baseadas nas equações da relatividade geral, a equipa concluiu que o buraco negro resultante foi ejetado a uma velocidade superior a 50 km/s. Para colocar este valor em perspetiva, esta velocidade seria suficiente para permitir que o buraco negro escapasse da atração gravitacional de aglomerados estelares densos. Os dados estatísticos obtidos revelam uma robustez notável, alcançando um nível de confiança na ordem dos 95%.

Além da velocidade, os cientistas conseguiram traçar a direção deste movimento face à Terra e ao eixo orbital do sistema, descobrindo que o empurrão não ocorreu alinhado com o plano da órbita nem apontou diretamente para o nosso planeta, assumindo uma rota intermédia.

Uma nova era na exploração do Universo

Para simplificar a compreensão deste fenómeno, o Professor Juan Calderon-Bustillo comparou os sinais gravitacionais a uma orquestra, onde o som de diferentes instrumentos se destaca dependendo da posição do ouvinte na sala. Foi precisamente esta variação na "acústica" gravitacional que permitiu à equipa reconstruir o movimento tridimensional do objeto.

O Dr. Koustav Chandra, da Universidade Estadual da Pensilvânia, sublinhou a proeza técnica que representa reconstruir a trajetória exata de um corpo situado a milhares de milhões de anos-luz de distância, analisando unicamente as vibrações no espaço-tempo.

Este avanço reveste-se de extrema importância para a astronomia multimensageira, especialmente no estudo de fusões que possam emitir luz, como acontece nos núcleos galácticos ativos. Saber a direção exata do recuo ajuda os astrónomos a confirmar se um sinal gravitacional está genuinamente associado a um clarão luminoso captado pelos telescópios ou se tudo não passa de uma mera coincidência cósmica. Com este passo, a ciência das ondas gravitacionais evolui da simples deteção para o mapeamento detalhado da mecânica celeste mais extrema do Universo.

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