
A forma como a internet funciona está a sofrer uma transformação drástica, com os sistemas automatizados a ultrapassarem largamente a atividade humana. Mais de metade das interações registadas em sites, aplicações e APIs em todo o mundo já não são feitas por pessoas reais.
De acordo com o relatório Bad Bot 2026 da Thales Group, os bots representaram 53% de todo o tráfego web global em 2025, o que reduz a quota dos utilizadores humanos para os restantes 47%. O cenário agrava-se com a proliferação da inteligência artificial, que fez multiplicar os ataques automatizados em 12,5 vezes, com um salto de dois milhões para 25 milhões de incidentes. Para ilustrar a dimensão do problema, a empresa francesa bloqueou impressionantes 17,2 biliões de pedidos provenientes destes sistemas. Até mesmo ataques específicos, como o registado a partir da China no passado mês de abril, chegaram a somar sete milhões de pedidos em apenas 24 horas.
A evolução do perigo: agentes autónomos e o ataque às APIs
A classificação tradicional que dividia o tráfego automatizado entre bots favoráveis (como os rastreadores de motores de busca) e maliciosos tornou-se obsoleta. A introdução de agentes de IA criou uma terceira categoria: sistemas capazes de interagir com aplicações e APIs em nome de utilizadores reais, executando tarefas e consultando dados. Como conseguem imitar comportamentos humanos, alterar impressões digitais e adaptar-se aos mecanismos de defesa, tornam as ferramentas de segurança convencionais cada vez menos eficazes.
Atualmente, 40% de todo o tráfego web corresponde estritamente a bots maliciosos, um aumento de três pontos percentuais face ao ano anterior. O principal alvo desta nova vaga são as APIs, que recebem 27% dos ataques diretamente, ao contornarem as interfaces visuais para atingir os sistemas internos a uma velocidade estonteante. O setor financeiro é a principal vítima, suportando 24% de todos os ataques de bots e 46% das tentativas de apropriação de contas, um risco enorme à luz de regulamentos europeus como o RGPD, DORA ou NIS2. O tráfego de IA detetável em 2025 revelou ainda que 85% corresponde a rastreadores (crawlers) para treino de dados e 15% a recuperadores de informação em tempo real (fetchers).
O impacto devastador nos criadores de conteúdo
O ecossistema dos conteúdos online enfrenta uma ameaça sem precedentes. Dados de um relatório da Akamai, publicado em abril de 2026, revelam que a atividade de bots de IA no setor editorial cresceu 300% em 2025. O grande desafio prende-se com a sustentabilidade do modelo de negócio: no último trimestre de 2024, os chatbots geraram menos 96% de tráfego de reencaminhamento comparativamente à pesquisa tradicional da Google.
Empresas como a Cloudflare alertam para um desequilíbrio crítico entre a extração de informação e o retorno em visitas. A meio de 2025, cerca de 80% da atividade destes sistemas destinava-se unicamente ao treino de modelos. O resultado prático é que as máquinas consomem o conteúdo de forma intensiva, mas reduzem as receitas publicitárias e a visibilidade das marcas ao ponto de forçarem o encerramento de vários portais. Soluções hipotéticas como sistemas de pagamento para permitir o rastreio continuam sem adoção prática, o que acelera o fim da web tal como a conhecemos.












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