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A Meta enfrenta esta semana dois grandes julgamentos nos Estados Unidos devido a alegados danos causados pelas suas plataformas. No Novo México, a procuradoria-geral acusa a gigante tecnológica de facilitar a exploração infantil e de prejudicar os mais jovens através de funcionalidades desenhadas para prender a atenção. Em simultâneo, num caso a decorrer em Los Angeles, uma cidadã da Califórnia processou a empresa por danos na sua saúde mental, que afirma serem resultado direto das escolhas de design viciante aplicadas pela empresa de Mark Zuckerberg e por outras plataformas rivais.

A defesa e a comparação com séries de televisão

Durante os processos, a empresa tem rejeitado categoricamente a ideia de que o uso das suas plataformas deva ser considerado um vício. Adam Mosseri, o principal responsável do Instagram, afirmou em tribunal que as redes sociais não são clinicamente viciantes, chegando mesmo a comparar o uso da plataforma ao ato de estar viciado numa série da Netflix.

Nas alegações iniciais do julgamento no Novo México, o advogado da empresa, Kevin Huff, foi ainda mais longe. O representante argumentou perante o júri que o vício em redes sociais não é um conceito real, baseando-se no facto de não constar no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), o guia oficial utilizado pelos profissionais de saúde mental nos Estados Unidos. Segundo Huff, a Associação Americana de Psiquiatria não reconhece este vício da mesma forma que reconhece a dependência de drogas pesadas ou álcool.

Especialistas em saúde mental rebatem os argumentos

No entanto, a comunidade médica e científica apresenta uma visão bem diferente daquela que foi pintada em tribunal. A própria Associação Americana de Psiquiatria (APA) esclareceu que o facto de o vício em redes sociais não estar atualmente listado como um diagnóstico oficial no seu manual não significa que o problema não exista na realidade. A organização disponibiliza, inclusive, recursos informativos sobre o tema nas suas plataformas oficiais.

Tania Moretta, investigadora em psicofisiologia clínica que estuda este fenómeno, concorda com a associação. A especialista explicou que a ausência de classificação formal não invalida que um comportamento seja considerado viciante, inadaptado ou clinicamente significativo. Moretta sublinha que já existem evidências científicas documentadas de que o uso desregulado destas plataformas está associado a alterações psicofisiológicas e a impactos negativos na rotina, como distúrbios de sono, sofrimento psicológico e prejuízos no rendimento escolar ou profissional. Para a investigadora, a questão central reside em perceber se determinadas escolhas de design exacerbam a vulnerabilidade de utilizadores com maior predisposição.

Próximos passos e a presença de Mark Zuckerberg

Os dois julgamentos continuam a decorrer e devem prolongar-se pelas próximas semanas. No caso do Novo México, os jurados já ouviram os testemunhos de Arturo Bejar e Brian Boland, dois antigos executivos que se tornaram denunciantes e que criticaram publicamente a empresa por colocar o crescimento e os lucros acima da segurança dos utilizadores.

Em Los Angeles, o testemunho de Adam Mosseri já foi concluído, mas a atenção vira-se agora para a próxima semana, altura em que é esperado o testemunho do diretor executivo da empresa, Mark Zuckerberg. Esta fase mediática é apenas a ponta do icebergue para a gigante tecnológica, que enfrenta ainda um julgamento com distritos escolares agendado para junho, além de processos movidos por mais de quatro dezenas de procuradores-gerais estaduais, segundo os detalhes avançados pelo The New York Times.

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